II REIS – XXVI – JOSIAS FLOR DE CACTO

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octubre 11, 2018 by Bortolato

Cacto, ou cáctus. É admirável observar essa planta. Ela se adapta bem em climas secos e em locais bem áridos. Lugares em que não se acha uma gota de água, e não cai uma chuva sequer por vários meses a fio, onde morrem outros tipos de plantas que não têm a sua estrutura para suportar tamanhas condições climáticas adversas.

Apesar disso, não se sabe como, o cacto consegue sintetizar água das areias mais secas, e ainda produzir flores em pleno estio. E que lindas flores, diga-se de passagem. É uma das maravilhas da natureza. Muitas vezes se percebe que alguém cortou um pedaço da lateral do caule do cacto, para dele poder extrair um pouco de água para beber, no meio de um deserto escaldante, e assim vemos como uma planta tão peculiar ainda serve de ajuda a viajores de paragens desérticas.

O cacto não conta com a sombra de palmeiras, e nem de outras plantas para o ajudar a manter-se ereto, mas para ele isso não é problema. Como um obelisco levantado em honra ao Criador, ele ergue-se sozinho, e conforme a sua subespécie, mostra-se altaneiro ou mais modesto.

Quando muito, ele tem a companhia de outros cactos, que ali perto nascem, como resultado de uma fruta que se lhe desprendeu, tomada por morcegos, pássaros ou formigas, que abandonam suas sementes por onde vão, e assim os cactos vão-se multiplicando, e maravilhando os zoobotânicos.

O que mais nos deixa impressionados é notar que, a despeito das dificuldades apresentadas em um deserto, essa planta não se espanta, não murcha, mas enfrenta-as todas com galhardia, e, parecendo até zombar do calor e sequidão do ar, ostenta suas floradas sem nenhum acanhamento.

A lição que o cacto mais nos esina subliminarmente é a de apresentar flores e frutos onde outros nem ousam semear, e sua aparição nos desertos do mundo são prova de que tudo é possível para alguém que queira crescer e frutificar onde ninguém jamais poderia imaginar algo assim.

A fruta sabra é um exemplo da espécie, aliás, típica da região de Israel, e os israelitas que para lá retornaram da Diáspora para ali se estabelecerem também receberam esse cognome, pois se reconhecem a si mesmos como frutos produzidos em condições totalmente inóspitas, um fruto muito diferente e autóctone.

Se nos reportarmos à história de Israel, entretanto, constataremos um exemplo de vida semelhante ao do cacto, ao qual tomamos a liberdade de chamá-lo de “Josias Flor de Cacto”.

Sua história está escrita em II Reis, capítulos 22 a 23, e II Crônicas 34 e 35.

Que história! Que rei foi Josias!

Nascido em um clima de conflito religioso, entre as idolatrias e a dramática conversão de seu avô Manassés, e ainda criado à volta dos maus exemplos adotados por seu pai Amon.

Manassés havia sido um rei que deixara um rastro de impiedade e blasfêmias contra Deus e contra a justiça da Lei, espalhando sangue inocente por toda parte do seu reino. Como rebelara-se e tentara unir-se a Neco, o Faraó do Egito, para defrontar-se contra a Assíria, e ambos tivessem sido derrotados, Manassés foi levado cativo para a Babilônia, que à época era um reino subserviente à Assíria. Lá no exílio pôde refletir sobre seus maus caminhos, e, tendo recebido a graça de ser ouvido por Deus, pois que orou ao Senhor Yaweh, reconhecendo seus erros e de lá voltou para tentar desfazer as loucuras que fez e reparar os erros que cometeu, mas ao falecer, seu filho Amon voltou a fazer as mesmas coisas que levaram Manassés ao cativeiro, reavivando as heresias e a idolatria sem limites em Judá.

Amon reinou apenas dois anos em Jerusalém, tendo iniciado seu reinado aos vinte e dois anos de idade. Em meio a tamanhas barbaridades cometidas, os seus servos conspiraram contra ele, matando-o, quando contava apenas vinte e quatro anos, uma vida totalmente jovem e desperdiçada estupidamente.

O povo da terra, indignado com o que fizeram com o seu rei tão jovem, por sua vez mataram aos que haviam conspirado contra Amon, e não lhes restou outra alternativa senão proclamar seu filho Josias, com oito anos de idade, em seu lugar. Era o ano 640 A.C. Uma criança teve que governar o país! Eram ainda dias de incerteza no reino de Judá.

Graças aos céus, parece que a conspiração malograda dos inimigos do rei Amon ainda contribuiu para que houvesse uma limpeza espiritual no ambiente do palácio real, de modo que Josias pôde contar com o apoio de verdadeiros servos de Deus como seus conselheiros. O povo, porém, se atirava e rolava na idolatria, incitando a ira do Senhor.

Josias era um cacto que cresceu espontaneamente no meio da crueldade humana, e que a despeito da hipocrisia do povo, o qual atendia às reformas espirituais de maneira leviana, ele foi um rei que fez direfença, deixando uma marca muito positiva para todos o seguirem na jornada de servos de Deus.

O exemplo de seu pai não o influenciou de maneira alguma. Amon era Amon, e Josias era Josias. Personalidades muito diferentes e distantes sob o ponto de vista espiritual. Cremos que sua piedade se deveu, em parte, à sua mãe Jedida, filha de Adaías, de Bozcate (II Reis 22:1).

Ele manteve um bom, senão excelente relacionamento com os sacerdotes de sua época, pois ordenou que a prata ofertada ao Templo do Senhor fosse fielmente entregue aos mestres de obras para as reformas necessárias, pois que estragos tinham sido deixados para serem consertados.

Em meio a essas reformas do Templo, foi encontrada uma cópia do livro da lei do Senhor, que possivelmente seria do Livro de Deuteronômio. Esta foi entregue pelo Sumo Sacerdote ao Escrivão, o qual a levou ao rei, que logo ordenou que lhe fosse lida integralmente.

Ao que tudo indica, as Leis do Senhor haviam sido ridicularizadas e desprezadas durante o reinado de Manassés e Amon, e por este motivo também destruídas as suas cópias. Chegaram até ao absurdo de constituir uma ofensa capital ao poder do rei se alguém mantivesse um exemplar da Palavra de Deus – mas graças a algum sacerdote fiel, uma cópia foi escondida dentro do Templo, na esperança de que um dia voltasse a raiar a luz de Yaweh em Jerusalém…

Ora, o livro de Deuteronômio revela com todas as letras que se o povo do Senhor se desviar de Sua Lei, seguir a falsos deuses, e cometer abominações que as demais nações cometem, este haveria que ter de suportar as pragas e maldições que pesariam sobre a população do reino, as quais não eram nada leves ou fáceis de se sofrer. Desgraças sobre desgraças haveriam de vir, como consequências inevitáveis, e isto para todos os cidadãos do reino. Todos as sofreriam, desde o maior até o menor.

Isto ocorreu no décimo oitavo ano do reinado de Josias, que, até ali não havia ainda mostrado traços bem definidos quanto a suas crenças e sua vida espiritual. Era, já chegado o ano 622 A.C., e tudo o que havia sido feito desde os tempos de seu avô Manassés, bem como o que fizera seu pai, Amon, estava escrito no Céu com tinta indelével. E quanto ao povo, que ainda jazia nas paixões próprias da idolatria?

Josias contava então apenas com vinte e quatro anos de idade, mas sua idoneidade moral e amadurecimento espiritual denotavam que ele era de outra estirpe, que não a de seus antepassados diretos.

Tendo ouvido acerca dos castigos e maldições que cairiam sobre o povo que deixara de adorar ao Senhor Yaweh, para seguir os seus próprios caminhos, especialmente aqueles prescritos em Deuteronômio 28, Josias sentiu-se incluído dentre os que seriam atingidos pelo peso da mão de Deus. Ele ficou atônito, pasmado, e lamentou desesperado, pois o destino já estava traçado, e o que seria dele, e de seu reino? Ao que tudo indicava, era hora de chorar, rasgar as vestes, vestir-se de saco e cinzas, contristado, sensibilizado, humilhado diante de Deus. Josia fez assim, e ainda chorou, antevendo o terrível futuro que esperava a sua nação, sentindo profundamente um conflito desencantador armado dentro de sua alma, mas…

Quem sabe, ainda não haveria alguma esperança? O Senhor é bom, misericordioso, e não faria com que a maldade dos pais se derramassem sobre os filhos, pelo menos de imediato… Quem sabe? Quiçá…

Josias então teve uma feliz ideia: deveria haver ainda dentro do seu reino alguém, um profeta fiel a Yaweh, que possivelmente consultaria a Deus para confirmar, ou, na melhor das hipóteses, atenuar o que haveria de ser dali em diante. Procurando saber, ouviu falar de uma profetiza chamada Hulda, a quem ele logo pediu que a mesma fosse encontrada para que se consultasse a Palavra do Senhor.

A procura não foi em vão. A profetiza foi consultada, e esta logo recebeu de Deus a Palavra que definiria aquele momento cruciante na história de Judá. A palavra veio, contendo em seu bojo duas situações distintas.

Deus não é homem para que minta, e a Sua paciência foi esgotada. Não haveria mais como deter a ira do Senhor sobre o Seu povo impenitente. “O Meu furor se derramará sobre este lugar e não se apagará” (II Crônicas 34:25).

A segunda parte da profecia, porém, trouxe um certo alívio para Josias. Este seria poupado das tragédias que haviam de vir, porque o Senhor viu o seu estado de humilhação diante de Deus, de modo que o rei não veria com os seus olhos as desgraças que estavam para acontecer em Jerusalém e em Judá. Seus dias seriam ainda os últimos dias honrosos para o reino. Ele seria poupado dos horrores do cativeiro babilônico e da destruição da cidade.

Esclarecemos que a profecia que dizia que Josias “seria ajuntado em paz à sua sepultura”, porém, não deve ser interpretada de maneira absoluta e literal. O fato é que alguns reis que se seguiram não puderam ter um funeral digno de sua realeza, e outros sequer foram enterrados em Jerusalém, depois de extremamente maltratados. Na verdade, Josias morreu em uma batalha, lutando bravamente por seu povo, do modo mais digno que um homem honrado poderia ser ceifado desta vida – aliás, este era o sonho de todo soldado que empunhava valentemente a espada em defesa de seu povo: ter a morte de um heroi. E esta foi a morte de Josias, cujo corpo foi levado de Carquemis a Jerusalém, onde recebeu todo o cortejo digno de um excelente rei.

Ele viveu como soberano em Jerusalém, sem sequer sentir o que era ser um reino avassalado pela espada do inimigo, e nem ser um simples vassalo de reinos estrangeiros. Desfrutou de plena liberdade durante todos os dias de seu reinado, apesar de todas as pressões que vinham de terras estranhas, como uma caldeira prestes a explodir. Lutou pela liberdade de seu povo, e morreu como um libertador. Muitos choraram pela sua morte, com o coração extremamente grato ao seu rei. A flor de cáctus foi ceifada pelo inimigo, mas levada pelo vento para o abrigo dos que esperam pela primeira ressurreição – a dos justos do Senhor.

O que fez Josias depois de ter ouvido a profecia de Hulda, é o que conta realmente. Ele foi, como seu bisavô Ezequias, um reformador de primeira linha. Pena que um drástico hiato de anos de idolatria tenha manchado a sequência de fidelidade ao Senhor entre estes dois admiráveis reis, pois de fato eles nem se conheceram nesta vida, mas tinham muito em comum entre si.

Eis um caminho a se trilhado… O caminho do Senhor, mesmo quando o quadro do futuro dos nossos concidadãos não é nada entusiasmador.

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto nas videiras; ainda que o produto da oliveira falhe, e os campos não produzam mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado do estábulo e não haja gado nos currais;

mesmo assim, eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha Salvação.

O Senhor é a minha força! Ele fará os meus pés como os da corça e me fará andar sobre os meus lugares altos. “ (Habacuque 3: 17-19)


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