NEEMIAS – VII – TRISTEZA E ALEGRIA

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abril 13, 2020 by Bortolato

Dois sentimentos que conhecemos desde a nossa mais tenra idade. Com o tempo, vamos colocando-os em ordem, encaixando-os sobre os fatos da vida que nos sucedem.

Se pusermos esses dois aspectos, um em cada lado de uma balança romana, veremos para qual dos pratos temos sido mais propensos.

Há pessoas que valorizam mais as tristezas do que as alegrias, e vice-versa. Alguns são radicais em serem tristes ou alegres. Há também aquelas outras que os alternam, intensificando-os a cada vez que estes vêm, experimentando constante intercalação de emoções, ora de tristezas, ora de alegrias.

Na verdade não temos, em nosso autocontrole, como invertermos bruscamente esta ordem de altos e baixos, porque ambos estes sentimentos são aflorados de conformidade com os motivos dados aos mesmos e também conforme a disposição emocional que estamos vivendo em cada momento.

Um palhaço, por exemplo, pinta em seu rosto uma espécie de máscara que insinua estar sempre rindo de alegria, mas ele pode estar-se remoendo de tristeza ou angústia por dentro de si, sem ter liberdade de externá-lo, porque seu modo de ganhar a vida o pressiona a dissimular aquilo que realmente se passa no seu interior. A famosa ópera “Il pagliaccio”, de Leoncavallo, retrata muito este enfoque.

Já ouvimos alguns testemunhos desses artistas do picadeiro que passaram por sérios problemas, e enquanto estavam fazendo outros rirem, eles mesmos tinham vontade de chorar.

Há, porém, situações em que se tem os dois motivos concomitantemente: um para nos entristecer e outro para nos alegrar, ao ponto de não sabermos qual deixarmos aflorar.

No livro de Neemias, capítulo 8º, temos a narrativa de um caso como estes.

O povo hebreu teve vários momentos da sua história em que essa alternância se pronunciou, mas este episódio foi marcante, porque tristeza e alegria se manifestaram na mesma ocasião, tomando conta de toda a coletividade que estava em Jerusalém.

Isto aconteceu no sétimo mês do calendário judaico, o qual coincide em parte com o mês de outubro do ano 444 A.C. Ocasião em que o povo estava reunido para comemorarem a Festa dos Tabernáculos.

Aquele era o povo que havia sido trazido da Babilônia, depois de dezenas de anos viver ali no exílio. Os mais velhos chegaram a testemunhar ao vivo e a cores o que lhes sucedeu quando Nabucodonozor invadiu Jerusalém, com ganas de quebrar o espírito nacionalista que estava enraizado na alma dos judeus. Foram mortos muitos deles de fome e de peste durante o sítio da cidade,e na capitulação outros foram feridos, e uma menor parte foi levada cativa.

Agora estavam eles de volta, tendo erguido novamente o Templo e os muros da cidade, depois de muita oposição de povos vizinhos. Foram tempos difíceis, mas lá estavam então o Templo, o Altar e a muralha protetora erguidos. Os sacerdotes e levitas já estavam a postos para o seu serviço ministerial.

O povo que voltara para as suas respectivas cidades judaicas lembrou-se muito bem que era o tempo de celebrarem a Festa dos Tabernáculos, e vieram em peso para participarem daquele momento tão aguardado. Quanto tempo já fazia que eles não puderam festejá-la… mas chegou o grande dia.

Seria a primeira Festa dos Tabernáculos em que eles poderiam então sentir-se seguros, rodeados por aquelas altas muralhas. Então eles já poderiam reunir-se todos, armarem as suas tendas dentro da cidade, em obediência à Lei (Levítico 23:42). Não teriam motivos para temerem uma invasão de inimigos naquela nova circunstância. Aquelas muralhas os rodeavam e os vigias estavam no alto delas a postos e alertas. Qualquer movimento dos povos ao redor tentando invadir, seria logo identificado ao longe, delatado e rechaçado com vigor.

Um clima de expectativas permeava no meio da multidão. Todos estavam ansiosos para ouvir as trombetas tocando, para anunciar a iniciação do evento, tal e qual nos tempos passados. Eles estavam ali prontos e atentos para ouvirem as palavras do sacerdote, que lhes traria uma explanação da Palavra de Deus.

Tocaram pois as trombetas. Era aberto o primeiro dia daquelas festividades naquele mês.

Ninguém teria sido melhor indicado do que o sacerdote Esdras para dar início àquela ocasião festiva, data marcada pelo próprio Senhor Yaweh a Moisés , no monte Horebe.

Esperado e amado por todos ali, o sacerdote Esdras enfim aparece na praça que ficava próxima à Porta das Águas, em um palanque de madeira elevado, com o propósito de ser visto por todos os presentes. Por sinal, fora naquela mesma praça em que Jesus, quase quinhentos anos depois, também proferiu aquele discurso marcante, em que convidou o povo a vir a Ele, para beberem da Água da Vida (conf. João 7:37-40).

Esdras trazia nas mãos alguns rolos de pergaminho, os quais continham as palavras da Lei do Senhor. Ao abrir o livro da lei, o povo todo se pôs em pé.

Esdras estava com muita vontade de pregar, e não fez nenhuma questão de economia de tempo para tanto. Ele queria que o povo pudesse rememorar e entender a razão de tudo o que lhes havia sucedido, e a grande e maravilhosa oportunidade que eles tinham nas mãos, aberta e franqueada pelo próprio Deus. Ele fez uma leitura sobre um púlpito de madeira que fizeram para aquele fim, a qual tomou todo o período da manhã, desde a alva até o meio-dia.

A fim de que ninguém visse aquilo e dissesse que não pôde ouvir bem ou não tivesse entendido o que ouvira, os levitas então continuaram a prática, lendo e explicando com clareza o espírito da Lei.

Ao ouvir aquelas palavras , uma comoção geral caiu sobre aquele povo. Alguns queriam segurar-se, mas não se contiveram, e chegaram às lágrimas. Outros choraram em alta voz. Filhos se comoviam porque viam seus próprios pais chorarem muito. Foi uma reação que tomou conta de todos.

A Lei mosaica era muito incisiva, e sempre deixou evidente que se o povo de Israel se desviasse dos caminhos do Senhor, teria que sofrer muitas tristezas em suas vidas, como de fato eles o experimentaram na invasão babilônica e com o exílio.

Aqueles presentes ali sentiram também que toda a dificuldade que tiveram para erguerem o Templo e, somente anos depois levantarem os muros, eram apenas algumas das consequências dos pecados seus e dos antepassados, que desrespeitaram a Torah, e viveram em contínuas transgressões. Eles não apenas desprezaram uma lei, ou um código de ética. Eles desprezaram ao Senhor, que os havia adotado para serem povo Seu, isto foi grave, e até a geração seguinte teve de arcar com as consequências.

Era-lhes impossível dissociar o que eles ouviam daquilo que lhes havia acontecido no passado. Seus pais foram rebeldes, desobedientes a Deus, teimosos e impenitentes pecadores, fazendo as coisas que de tão abomináveis que eram, outrora foram a causa das sete nações cananitas terem sido desapossadas das terras de Canaã; e assim foram também os israelitas expatriados dali.

Os sofrimentos do cativeiro ainda estavam lhes doendo na alma, à flor das suas memórias. As viúvas, os feridos, os órfãos, os desfilhados e os despojados de suas terras o sentiram como ninguém. Decididamente foram tempos muito difíceis para eles.

Por outro lado, eles também estavam ali, de volta, prontos para recomeçarem a viver e de novo serem o povo de Deus, que Lhe é agradável e obediente à Sua Lei. Salvos e protegidos, dentro de uma cidade sede erguida das cinzas do passado, agora novamente seguros, podiam sentir-se nos braços do Senhor.

Festejando com avidez aquela Festa dos Tabernáculos, no afã de se reencontrarem com o seu Deus, cheios de esperanças, então já podiam reviver os dias de alegria proporcionados pelo Senhor.

Desse modo, nem tudo era motivo para tristezas naquele lugar. Eles tinham também muitos motivos para serem gratos a Deus e se alegrarem.

Neemias, Esdras, e os levitas perceberam que o povo estava deixando a tristeza vencer a alegria daquele momento e por isso exortaram-nos, fazendo-os ver que aquele dia não era para chorarem, mas sim, para alegrarem-se, porque aquela era uma ocasião de festa consagrada ao Senhor Yaweeh, e dia de festa é dia para alegrarem-se. Disseram-lhes:

  • … porque este dia é consagrado ao nosso Senhor, portanto não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa força.” (Neemias 8:10b)

Aquele foi o momento do paradoxo: vinha-lhes o choro e ao mesmo tempo, o riso. Alegria e tristeza competindo dentro de seus corações. O passado lhes alimentando a tristeza, e o presente e o futuro trazendo-lhes a alegria e a esperança de dias melhores. Nisto reside a sabedoria: ou vivemos lamentando as perdas do passado, nutrindo a tristeza em nossos corações, ou nos voltamos para a graça do Senhor, que nos acolhe, e nos dá vida em abundância, com alegria.

Ao ouvirem as palavras de seus líderes, a balança então propendeu mais para o lado da alegria. O Senhor era com eles, e quem ama ao Senhor pode sentir que o futuro traz muitos motivos para alegrarmos os nossos corações.

Imbuídos desse espírito, eles todos foram a comer, beber, doar porções de carne, vinho e pães aos que não tinham, e alegraram-se bastante. A alegria venceu.

No dia seguinte, a fim de terem material para construção de cabanas, convocaram o povo para irem aos montes e buscarem ramos de árvores para essa finalidade.

Trouxeram-nos e encheram os seus terraços, átrios e praças de tendas, de modo que jamais tinham visto essa data com tantas cabanas, preenchendo o visual panorâmico da cidade como naqueles dias.

E eles queriam mais. Não ficou só nisso.

Procederam assim por sete dias, e Esdras prosseguiu na leitura e comentários da Lei de Deus, desde o primeiro até aquele sétimo dia.

No oitavo dia ainda houve uma assembleia solene, conforme está previsto na Lei (Números 29:35).

Na sequência, chegou então o dia Nacional da Expiação, quando era chegado o tempo de os israelitas AFLIGIREM suas almas. Nenhuma obra servil era permitida, porque naquele dia de sábado era o dia em que o povo teria de trazer ofertas queimadas, e o sumo sacerdote teria que apresentar-se perante o Senhor no lugar mais sagrado do Templo: o Santo dos Santos. Isto deveria acontecer apenas uma vez ao ano, levando ele o sangue em suas mãos como oferta pelo pecado.

Aquele dia era para profunda reflexão, mas também trazia uma certa expectativa para os judeus: “será que Deus, o Senhor, aceitará a nossa face?“ O sumo sacerdote, representando o povo, com muito cuidado e cautela para não fazer algo que despertasse a ira de Deus, deveria entrar duas vezes naquele recinto todo esfumaçado do incenso previsto na Lei, e apresentaria primeiramente o sangue de novilho como provisão para fazer o pedido de perdão por seus próprios pecados, e depois, saindo dali, voltaria novamente dentro do véu, desta vez então trazendo o sangue de um bode, para aspergi-lo sobre o Propiciatório, na esperança de que o seu povo fosse aceito e perdoado pelo Deus de Jacó.

Aqueles sacrifícios deveriam ser executados com muita reverência e até pesar nos corações. O sangue representa a vida e sangue derramado representa uma vida deposta, motivo de drama e muito constrangimento.

Esse coração compungido é justificável à medida em que foi provocado pelos próprios pecados cometidos, contrariando os planos de Deus para nós e a comunhão com o Seu Espírito foi prejudicada, tornando os pecadores em réus passíveis de uma condenação eterna, longe das moradas do Altíssimo. Isto porque o Senhor, que é longânimo e perdoador anela ver as Suas criaturas arrependidas dos erros que lhes entenebrecem a alma.

Naquele tempo todo o povo ficava do lado de fora do Templo, esperando ver o sumo sacerdote aparecer-lhes, com os seus deveres cumpridos. Sinal de que o Senhor não o matou ali, no Lugar Santíssimo, portanto, mais uma chance que Ele dá ao Seu povo, para andarem mais um ano debaixo de Sua mão protetora.

A contrição pelos pecados é uma atitude de tristeza, mas o perdão de Deus traz a alegria que sobrepuja quaisquer sentimentos contrários, fazendo a balança romana propender para o gozo do servo do Senhor. Assim, está determinado na Lei que, após o dia Nacional da Expiação, viessem mais sete dias de festas, ainda habitando em tendas, comemorando o modo como o povo de Israel pôde sobreviver a um deserto escaldante, e ali conhecer ao Deus que o salvara da escravidão com forte e potente mão.

Ao contrário do que pensam alguns, o Deus de Israel, o Senhor Yaweh, é dispenseiro de muita alegria, que Ele dá a todos os Seus indistintamente.

Dentro deste mesmo tema, passamos a abordar uma outra festa comemorativa dos judeus: a Festa da Páscoa. Páscoa da passagem do anjo da morte pelo Egito, o qual não ceifou um só israelita. Páscoa que celebra a grande libertação que lhes foi dada pela passagem pelo Mar Vermelho, onde seus inimigos se afogaram.

Naquela última noite em que eles passaram no Egito, ainda como escravos do Faraó, eles ainda comeram a carne do Cordeiro Pascal, com pães asmos e ervas amargas, para marcar nas suas memórias o amargor da escravidão, mas só por uns instantes, porque naquela mesma noite eles tiveram a alegria de arrumarem rapidamente suas bagagens, pegar suas coisas e saírem às pressas, não vivendo nem mais um momento naquela circunstância. Eles fizeram isso com muita alegria, exultaram e saíram debaixo da mão do Deus que usou o Seu profeta Moisés.

Pois bem, quando Jesus veio a este mundo, o Seu último momento de alegria aqui foi na última ceia com Seus discípulos celebrada no Cenáculo. Ao saírem dali, foram para o Jardim das Oliveiras, onde Ele começou a orar ao Pai, confessando estar tomado de tristeza até a morte, porque era chegada a hora em que o poder das trevas haveria de manifestar-se, para tragar a Sua vida.

Jesus foi traído, humilhado, abandonado pelos seus, enquanto os romanos, açulados pelos fariseus e saduceus, se alegraram de maneira sádica e maligna como nunca se viu.

Seus discípulos amedrontados e chocados com aquele espetáculo de crueldade ser despejado sobre o Filho de Deus, com a Sua morte passaram a viver três dias de intensa tristeza, incertezas sobre o futuro, confusão mental e desilusão geral. Parecia que tudo estava destruído em suas vidas. Não viam nem sombra daquela esperança, dos dias de contemplação das maravilhas de Jesus. Como iriam eles agora conviver com aquele trauma da morte do seu Senhor, a quem viam como o Messias?

Ao chegar, porém, aquele domingo de Páscoa, o que lhes parecia ser impossível aconteceu. Jesus ressuscitou! Jesus apareceu-lhes vivo, mais vivo do que nunca, vitorioso sobre a morte! Reassumiu a vida pelo poder do Espírito Santo!

Os sentimentos dos discípulos naquele dia foi semelhante ao dos judeus por ocasião do primeiro dia da Festa dos Tabernáculos, no ano em que voltaram do cativeiro da Babilônia.

Jesus levou em Seu corpo os nossos pecados, e morreu em nosso lugar, tal e qual o Cordeiro Pascal. Teve de ser assim, porque não havia outro jeito de sermos aliviados e alforriados da escravidão e condenação decorrente do peso de nossos pecados. Isto realmente é um motivo de tristeza, vermos que o Senhor teve de morrer por nossa causa. Isto nos enche de um sentimento que nos pesa e nos entristece, mas… ao mesmo tempo…

Ao mesmo tempo, tal e qual a alegria que teve Maria Madalena diante da sepultura de Jesus,ao vê-Lo ressuscitado, essa alegria de fato e de verdade sobrepuja em muito toda tristeza.

A balança romana, no caso, dá um salto brusco, invertendo a direção do fiel da mesma, desfazendo o peso da tristeza e fica restando somente a alegria do Senhor.

Se V. deseja receber esta inversão no fiel da balança da sua alma, saltando da tristeza para uma alegria que não vai mais acabar, tem aí uma proposta e um desafio de Jesus para sua vida.

Neste mundo há muitas alegrias falsas, que logo passam e desaparecem, deixando atrás de si um vazio de tristeza muito forte, mais do que uma alma pode suportar. Essas alegrias terrenas prometem muito, mas vêm e logo passam deixando aquele gosto de insaciedade nas almas – e um dia chega em que a pessoa a quem iludiram nunca mais verá esse tipo de alegria.

Você deseja alegrias eternas? Só há uma Pessoa que pode lhe dar: Jesus. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Vida Eterna, vida em abundância, o Pão da Vida, e a Água da Vida.

Ele está à porta do seu coração, pedindo para entrar. Abra a porta do seu coração. Deixe Cristo entrar. Ele promete fazer uma ceia que encherá a sua alma de gozo e satisfação. Não se demore. Ele ainda está esperando, batendo em sua porta.

Abraços, e tenha uma boa ceia com Jesus.


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