III – I CRÔNICAS – ASCENSÃO E QUEDA DE UM REI

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diciembre 3, 2018 by Bortolato

Quando intitulamos este tema, parece até que se trata de algum político da atualidade, mas qualquer semelhança será mera coincidência, e qualquer coincidência será apenas semelhança.

O que acontece é que os erros humanos se repetem com frequência, e, passam-se anos, séculos, e aquela velha natureza adâmica volta a manifestar-se de maneira muito semelhante à dos antigos.

O que faremos aqui será uma análise de um vulto de proa no cenário histórico-político de Israel. Já temos visualizado outros, e os mesmos defeitos, e as mesmas qualidades se repetem, como que por força de um fator genético.

Vamos ao caso em pauta. O rei Saul.

Saul, rei de Israel nos anos 1050 a 1010 A.C., o homem que não estava preparado para ouvir a voz de Deus e com Ele reinar.

Os capítulos 9 a 31 de I Samuel narram de maneira mais detalhada o que já temos comentado.

Agora vamos olhar o reinado de Saul sob um prisma global, e mais sintetizado.

O capítulo 10º de I Crônicas resume o desfecho final da vida de Saul, que apesar de ter obtido inúmeras vitórias em combates contra nações inimigas, por fim foi ele derrotado pelos filisteus, povo que insistentemente se lhe opôs durante todo o seu reinado.

Dentro deste final trágico de sua vida, vêm-nos os pensamentos que procuraram investigar a causa desta derrocada.

Saul não foi ungido pelo Senhor através das mãos dos profeta Samuel? Sim. Isto é verdade. E foi com a anuência do próprio Deus de Israel.

Logo, nos vem a pergunta que levanta a questão:

Se Saul era rei ungido por Deus, por que razão foi ele desamparado no final de sua vida, morto por suas próprias mãos, tendo o seu corpo sido afixado no muro de Bete-Seã, cidade localizada na junção entre o vale de Jezreel e o vale do Jordão? As armas de Saul e a sua cabeça foram colocadas no templo de Astarote.

Isto não foi um vexame para ele e sua família, e para todo o povo de Israel?

Antes de tudo, temos que analisar a situação por completo.

Saul não foi o homem que Deus escolheu, mas que Deus consentiu que fosse o rei de Israel, por insistência do povo. A queda de Saul ocasionou sérios prejuízos para Israel, mas afinal foi uma consequência quase inevitável de uma escolha precipitada – escolha do próprio povo israelita.

Além disso, vale esclarecer que o corpo de Saul foi, depois de morto e colocado no muro daquela cidade, retirado e movido dali por homens valentes de Jabes Gileade, os quais, tendo-o buscado corajosamente e trazido a Jabes, juntamente com os corpos de seus três filhos, queimaram-nos, sepultaram seus ossos debaixo de um arvoredo, e velaram-nos com um jejum de sete dias pelos seus resgatadores – de modo que apesar dos pesares, não faltou um funeral devido a um rei e seus príncipes.

Quanto à derrota sofrida, realmente foi algo muito drástico, pois que também morreram no monte Gilboa três dos quatro filhos de Saul, e dentre os quais estava Jônatas, o grande amigo de Davi. Devido à forte dominação filisteia, os homens de Israel tiveram que abandonar cidades e fugir delas para deixá-las aos filisteus.

Tudo isso culminou depois que Saul começou a afastar-se dos caminhos do Senhor. De fato, não foi um rei aprovado por Deus em tudo quanto fez.

A princípio de seu reinado, Saul parecia estar cumprindo bem o seu papel, de um rei que compreendia estar debaixo do Senhorio de Yaweh, mas com o passar do tempo, ele foi-se afastando dos padrões de Deus.

Em I Samuel 15 lemos que ele não deu a importância devida para a ordem do Senhor para eliminar Amaleque dos termos de Israel e cercanias. Guerreou, sim contra os tais amaldiçoados, dos quais não deveria sobrar uma alma viva, mas acabou poupando a vida do rei amalequita, e também apropriou-se do seu gado, contariando as ordens divinas.

Tal e qual Jericó o foi, nada deveria ser poupado. O fato é que Deus estava irado contra aquela nação amalequita, e se o Soberano Senhor o quis assim, foi porque Ele estava consentindo em que Israel fosse o Seu braço executor da Sua justiça.

O Senhor poderia simplesmente enviar raios, terremotos e outras formas de catástrofe para aniquilar os povos a quem desejasse infringir Seu duro juízo, mas Ele quis mostrar que Se agradava de Israel, o povo que escolhera para difundir a Sua Lei e a Sua luz ao mundo.

Saul não entendeu que era um rei a serviço de Yaweh, cuja autoridade advinha do Senhor (aliás, toda autoridade tem em Deus a sua origem), e que ele era apenas um subalterno do Céu – e quis fazer muitas coisas à sua maneira, do jeito que julgava ser melhor. Este foi o seu erro básico: soberba acima do Grande Juiz, pois que achava-se o único comandante do povo israelita. Desconsiderou ordens divinas e a Palavra de Deus.

Outros erros se seguiram nesta trajetória. Saul matou gibeonitas, povo que tinha a proteção de um pacto de paz e sem agressões com Josué; matou também os sacerdotes do Senhor em Nobe, quando estava com um ciúme incontido que buscava desesperadamente matar o seu servo Davi.

Com bastante constância, perseguiu a vida de Davi, guerreiro seu que, aos seus olhos era uma ameaça, mas na verdade era um fiel súdito de seu reinado e, mais do que isto, de Deus, e que nunca o havia traído, e nem cogitado em usurpar-lhe o trono. Davi, em que pesasse ter recebido de Samuel a profecia de que um dia seria o rei de Israel, jamais planejou e nem trabalhou para conspirar contra o pai de seu melhor amigo na corte, o príncipe Jônatas.

Apesar de haver sido poupado pela mão de Davi, que por duas vezes teve livremente todas as condições para matar a Saul, sua saga pela vida do seu fiel súdito continuava viva e intermitente, até de maneira torpe e sem sentido.

Outros crimes Saul cometeu, sem considerar que o verdadeiro Rei de Israel o haveria de chamar à responsabilidade.

Tantas foram as vezes em que a injustiça foi feita por suas mãos, que o Senhor, a partir de dado momento, afastou-Se dele. Já não havia mais aquele canal direto de comunicação com Deus – nem por profetas, nem por Urim, nem por Tumin (revelação sacerdotal), e nem por sonhos (revelação pessoal).

Impaciente, e temendo pelo pior, Saul ainda acrescentou mais uma transgressão no final de seus dias: consultou uma necromante em En-Dor, cidade a sete quilômetros do monte Tabor, que devido à sua localização, deveria ter sido tomada pela tribo de Manassés, mas nunca foi retirada a posse dos cananeus (Josué 7:11,12). Aquela feiticeira devia, portanto, ser cananita, pois que a Lei de Moisés ordenava que as tais não deveriam permanecer no meio do povo de Israel.

O que poderia uma revelação espúria, proibida por Deus, oferecer-lhe? Nada de positivo, e assim Saul nada recebeu, além de atrair mais ainda a maldição para a sua vida.

Por conseguinte, examinando-se a sua folha curricular, ele não tinha mais qualificação para comandar um povo a quem Deus queria revelar-Se como seu verdadeiro chefe, o Rei dos Reis, o Senhor dos Senhores.

Em meio a tudo isso, o Senhor já havia providenciado a unção sobre Davi, o filho de Jessé, para reinar em seu lugar.

O reinado de Saul teve sua importância pelo fato de haver introduzido a monarquia em Israel, apesar do fracasso em elevar o nível espiritual da nação para esta ser mais piedosa e dependente da graça de Deus, como deveria ter sido desde o princípio.

Malgrado todos os erros de Saul, foi durante o seu reinado que Deus começou a levantar Davi, preparando a este último para ser um rei segundo o coração divino. Como prova de que o Senhor não Se havia esquecido do povo ao qual amou desde antes da fundação do mundo, ambos estes tiveram de passar um tempo convivendo um com o outro, em meio a muitos ciúmes, e muitas coisas que bem poderiam ter sido evitadas, porque os dons de Deus são dados sem arrependimento, e a unção sobre a cabeça de Saul, tanto quanto aquela sobre Davi, não poderia ser esquecida ou depreciada.

Como Davi sempre respeitou a Saul, mesmo tendo sua própria vida por esse rei ameaçada, isto ainda foi reputado como pontos a favor do jovem ruivo de Belém.

Em outras palavras, Saul e Davi tiveram que administrar o fato de que ambos foram ungidos como rei em Israel – coisa que Saul não soube como tratar devidamente, respeitando a vontade de Deus; Davi, porém, sempre deu toda a honra ao homem que, revestido de autoridade real, dantes fora seu sogro, mas depois queria matá-lo e exterminar com o seu nome e sua fama de sobre o povo israelita.

Como se tornara inevitável a queda de Saul e de sua dinastia, então restou o único rei ungido por Deus para governar sobre o trono de Israel, Davi.

Os livros de Crônicas então, a partir do seu capítulo 11, deixam o reinado de Saul de lado e se prendem à dinastia davídica, a qual recebeu a graça da promessa de reinar eternamente no trono de Israel.

Um longo trecho da História de Israel foi suprimido em Crônicas, no que se diz respeito ao reino no Norte, pelo fato deste haver já, por ocasião da escrita desses livros, sido descaracterizado pela invasão da Assíria. Este reino assírio foi que em 722 A.C. desapossou os israelitas de suas terras e os espalhou pelo mundo afora, deixando somente uma pequena porção de fieis nos termos da velha Canaã Norte, conseguiu misturar os costumes hebraicos com os de outras nações, o que resultou em um sincretismo religioso que procurava servir a Yaweh e a outros deuses concomitantemente.

Isto foi uma grave perda para Israel. Nunca deveriam ter aceitado tal coisa.

Isto provocou um cisma entre os judeus e os samaritanos que perdurou até os dias de Jesus.

Veio então em 606 A.C. o exílio babilônico, que ocorreu após a inevitável queda do reino de Judá, bem como a destruição de Jerusalém (por causa da impiedade e o campear da injustiça por anos e anos a fio), mas os judeus que ainda restaram da tragédia conseguiram, mesmo no exílio, separarem-se dos costumes dos outros povos, vivendo em suas colônias à parte do restante das cidades onde foram realocados.

Não menos importante foi também o decreto de Ciro, que trouxe renovação das esperanças entre os judeus e Israel, permitindo que, aqueles que quisessem, pudessem retornar à Terra da Promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó, especialmente para reconstruírem o Templo que outrora havia sido dedicado ao Senhor Yaweh, e restabelecerem a adoração ao Deus dos deuses, o Único Senhor dos céus e da Terra.

É dentro deste contexto histórico que o autor de Crônicas gravou os traços que apontavam para o reino de Judá, onde ficava Jerusalém. Por isso se explica a sua ênfase nos acontecimentos que rodearam a cidade escolhida por Deus para ali interagir com a adoração de Seus fieis.

Daí o autor do livro sacro tratar com exclusividade os acontecimentos que levaram Judá ao cativeiro, sem perder de vista a esperança que morou nos corações judeus e de alguns israelitas, de voltarem ao Senhor, ao Seu Templo, à Sua Lei e à Sua Terra da Promessa.

De volta para a Terra da Conquista, esta era a perspectiva do sacerdote Esdras e de seus companheiros fieis, para voltarem a adorar ao Único Deus digno de adoração, da maneira que bem Lhe apraz, e para voltarem a ser o povo de Deus, na terra onde o Senhor lhes reservou lugar para tanto.

Esta era a visão do autor de Crônicas: depois de um longo e tenebroso cativeiro, voltamos a usufruir da maravilhosa oportunidade de fazermos as pazes com Deus. Nova e longa vida aos judeus, pois, lhes seja acrescentada, dentro desse Caminho que lhes foi reaberto.

Vamos, pois, desfrutar do perdão e dessa bendita comunhão de amor com o Ser Supremo. Isto sim, é que é ser venturoso, ora diga Esdras!


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