I REIS – III – TIRANDO PEDRAS DO CAMINHO

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diciembre 3, 2016 by Bortolato

Limpando o terreno.   Lançando fora os espinhos e os tropeços.

Quem pôde prestar serviço militar irá concordar que muitas normas e práticas adotadas pelas Forças Armadas têm muito valor para serem aplicadas em outras áreas da vida, e ilustram bem o que iremos comentar.

Incumbências.   Todos nós temos que receber incumbências, quer queiramos ou não, sejam estas das mais desejadas ou não.   Soldados recebem incumbências múltiplas.  Fazem plantão em seus alojamentos, faxina nas áreas de sua companhia e de seu regimento, e também prestam serviços de sentinela em lugares estratégicos que vigiem a movimentação de pessoas  civis e de colegas de caserna, como tarefas complementares às do propósito principal do serviço militar.

Tais serviços são feitos em forma de turnos ininterruptos, pois que não podem, ou não devem sofrer lapsos de descontinuidade, por serem essenciais ao setor de segurança e de manutenção.   Os incumbidos dessas tarefas são convocados para prestá-las, e não são aceitas as omissões ou relaxamentos.

Outro detalhe é que quando um militar toma em suas mãos um trabalho desses, ele deve receber tudo em ordem das mãos daqueles a quem irá suceder  – bem como terão, ao final de seu período de contribuição serviçal, que esforçar-se por entregar da mesma maneira, impecavelmente, a mesma tarefa para aqueles que o sucederão.   E ninguém fica no seu respectivo posto de serviço sem ser fiscalizado quanto à fidelidade no seu desempenho das funções, nas quais, aliás, falhas não são admitidas.

Um serviço de guarda sem uma constante vigilância teria que sofrer dura disciplina.   Os que fossem surpreendidos em falta no seu posto estratégico de defesa estariam comprometendo a segurança de seus companheiros.  Isso não ficaria impune, com toda certeza.

Mesmo uma faxina mal feita seria passível de ter que ser refeita pelos mesmos autores da mesma.

É, pois, muito bom e fica muito bem quando entregamos tudo em ordem a quem vem a nos substituir, para que este também execute as mesmas tarefas com todo o zelo que é esperado.    Isto é justo, correto, e nosso coração fica satisfeito quando assim podemos fazer.

É dentro deste espírito que vemos o 2º capítulo do Primeiro Livro dos Reis.

Foi com esta preocupação que sentiu-se Davi quando teve que abdicar da coroa em favor de seu filho Salomão.   Ele havia sido um bravo guerreiro, e estava entregando um reino que havia conquistado uma enorme área ao redor das fronteiras israelitas, e infringido grandes e insofismáveis vitórias sobre seus inimigos.   Deu paz ao povo de Israel, e descanso dos inimigos externos; sob este aspecto o serviço de Davi estava muito bem limpo, diríamos até que tinindo em seu brilho.

Davi estava, porém, preocupado quanto aos inimigos internos, e teve que advertir a Salomão quanto a estes.    Havia pessoas perigosas dentro das altas cúpulas, bem como dentro de certa área  de seu reino, pois que ele mesmo não conseguiu delas desfazer-se.

A própria maneira como Salomão teve de ser coroado às pressas já denotava que sua ascensão não ocorreu de maneira isenta de problemas.   E isto se deveu à participação daquelas pessoas que representavam perigos para o reino.

Davi percebeu isso e quando sentiu que seus dias de vida estavam chegando ao fim, logo que encontrou a abertura de uma brecha oportuna para isto, travou uma conversa muito séria com Salomão, a fim de “passar o serviço”.   Ele queria que tudo estivesse OK, e nada a relatar de restrições, mas as coisas ainda não estavam bem no ponto desejado.  Havia providências e medidas de cautela a serem tomadas.

Primeiramente,  Davi deixou a instrução mais importante a ser feita, aquela “sine qua non”, o conselho mais imprescindível que achou para passar ao seu filho e sucessor do trono:  “Tem coragem, e guarda os preceitos do Senhor”!

Salomão ainda era jovem.  Contava com cerca de dezoito anos de idade (teria nascido em 988 A.C.), e, em sua inexperiência, precisava mais que ninguém ouvir essas duas palavras:  Coragem!  Sê homem!   Isto é, seja forte, firme, não deixe os acontecimentos rolarem ao bel prazer das ondas do mar da vida, a fim de que estas não venham a empolar-se e afundar o seu barquinho!

Para ser um homem corajoso, porém, é preciso ter princípios, ter uma boa visão, uma direção bem clara e firmada em sólidos alicerces e colunas de sustentação.

Onde buscar esses alicerces e colunas?  Sem estes, não haverá segurança nem certeza de nada, nem no presente e nem no porvir.   Um rei tão jovem poderia ser facilmente manipulado por interesses escusos de terceiros.  Exatamente para suprir essa lacuna, foi que o Senhor Yaweh deu esta ordem a Josué um dia:

“Sê forte e mui corajoso para teres o cuidado de fazer segundo a Lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies nem para a direita e nem para a esquerda, para que sejas bem sucedido por onde quer que andares.” (Josué 1:7)

Isto posto, estava lançada a base para um governo de sucesso.  Sem esta, um fracasso seria inevitável.   Mas havia, em segundo lugar, outros cuidados a serem tomados.  Davi passa então a apontar os perigos, as pedras de tropeço que Salomão teria que retirar do seu caminho.   Haveria mister que fazer-se uma “operação limpeza do terreno”.

Davi faz, naquele momento, menção de uma das pedras de tropeço no caminho do novel rei, e revelou o nome desta: Joabe.   O temível general mor dos exércitos de Israel no governo de Davi, um homem de duro coração, que carregava em suas costas pelo menos dois crimes passíveis de uma corte marcial.

Joabe foi um excelente combatente nos primeiros anos de seu convívio com o rei Davi, mas em certo momento começou a agir com falta de sincronia com as ordens recebidas, e a agir por conta própria, visando a beneficiar sua própria causa.  Ficou muito independente, e por vezes fez prevalecer sua autoridade sobre a do rei, a quem devia fidelidade ampla e irrestrita.  Mas isto é apenas um enfoque particular que pôde ser observado em seu caráter.

Pior do que desobediência às ordens do rei, Joabe era homem capaz de matar até mesmo a parentes dos mais próximos, tal como o fez com seu próprio primo.  Tudo para vingar-se em tempos de paz de diferenças angariadas em tempos de guerra, com vistas a manter-se no alto comando do exército de Israel.   Com isto, chegou a matar à traição ao general Abner, quando este fora nomeado comandante geral das tropas de Israel; e também a Amasa (o seu primo!), quando este era recém nomeado general chefe do exército de Judá – sempre sob a desculpa esfarrapada de que estava eliminando os traidores do reino.   O assassinato destes dois generais, em qualquer exército deste mundo seria passível de um duro julgamento, que culminaria com variados tipos de punição, até a sentença capital, o que não foi feito imediatamente na mesma ocasião por motivos particulares e estratégicos.

Agora, Joabe tinha acabado de juntar seus interesses com os de Adonias, em busca de saciar aquela mesma ambição, e de continuar sendo o grande comandante dos exércitos de Israel, mesmo após a morte de Davi.   Desconsiderou por completo as promessas de Deus para Salomão, e o mesmo fez com relação às palavras de Davi acerca deste assunto.   Mais grave ainda é que, com isto, não se importou em colocar a Salomão, Natã, Bate Seba e outros na lista negra do livro de Adonias, quando este viesse a assumir o trono.    Não seria de admirar se Joabe não estivesse pronto a eliminar pessoalmente a todos esses contrários aos seus propósitos, uma vez que ele mesmo feriu a Absalão, um outro filho de Davi…  Salomão teria sido apenas mais um da sua lista.

Quantos problemas seriam evitados, se as pessoas tivessem por norma sempre consultarem e seguirem a vontade do Senhor antes de tomarem decisões que possam desviar os rumos de uma família e de uma história.

Na sequência, Davi oferece a Salomão o traçado do caminho para ver-se livre dessa ameaça contra seu filho herdeiro do trono:  não usar de precipitação.   Ter sabedoria, e agir com rigor no momento aprazível para ser aplicada a pena cabível para o caso.

Quantas amizades se desfazem em ruínas quando os carros são colocados adiante dos bois.   Se não queremos destruir mais do que construir, temos que ter o cuidado de esperar pela hora oportuna de entrar-se com a precisa operação.

“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita na hora certa”.  (Provérbios 25:11)

Desta maneira foi que Salomão teve que agir para tratar desta ameaça traiçoeira denominada Joabe.  Esperando o momento acertado de fazê-lo.  Tudo tem sua ocasião apropriada e o seu tempo certo, debaixo do sol. (Eclesiastes 3:1)

Em contraponto, Davi deixa Salomão ciente de uma enorme dívida que tinha para com Barzilai, o gileadita.   Aquele homem que sustentou sozinho e graciosamente a Davi, à família real e ao seus comandados, quando este fugia da face de Absalão.   Aquele homem, sim, mostrou-se um verdadeiro amigo para Davi, num momento de grande fraqueza, devido ao sofrimento causado pela traição de um filho, apoiada por um ex-amigo e conselheiro, Aitofel, e ainda todo um povo da região norte de Israel, seguido de uma terrível perseguição.   Nos momentos em que passamos por grandes perseguições de fortes inimigos é que valorizamos muito aos que abrem seus corações para oferecerem uma sincera amizade, fazem questão de serem solidários na dor, e nos acolher.   Isso tem um valor inestimável.

Foi isso o que fez Barzilai, comprometendo-se dos pés à cabeça com a causa de Davi, além de arriscar sua família e suas posses, que não eram poucas.   Por este motivo, veio mais uma recomendação para Salomão:  mostrar gratidão para com a família daquele homem, que nem quis receber pessoalmente a recompensa por seu feito.

Havia ainda uma terceira pessoa sobre quem Salomão deveria manter redobrada atenção.   Seu nome era Simei, filho de Gera, da tribo de Benjamin.   Este homem era partidário da mantença tradicional do reino nas mãos da família de Saul, e por isso mesmo foi que amaldiçoou e apedrejou a Davi quando este fugia de Jerusalém, rumo ao deserto, quando teve que escapar de Absalão.   Aquela preferência política radical de Simei ficou, assim, muito bem delineada, aos olhos de todos que seguiam aquela trilha naquela ocasião.   Considere-se que a transferência do reino da dinastia de Saul para as mãos de Davi não foi um processo fácil e nem rápido.   Muitos israelitas ainda preferiam ser liderados pela família de Saul.  Era uma questão de preferências políticas, coisas que acontecem no meio de um povo dividido.   E este Simei era alguém que demandava uma atenção mais profunda sobre si.   Tinha muita gente que o seguiria (II Sam. 19:16, 17).  Era potencialmente um poderoso futuro revolucionário que prometia voltar-se contra a dinastia de Davi a qualquer momento, talvez na primeira oportunidade, o que resultaria em um desastre – basta ver-se o que resultou do grito de Seba (II Samuel 20:1,2) dado em Gilgal. Precisaria ser observado bem de perto, a fim de que não se sentisse muito confortável para novamente ter liberdade de expressar sua rebelião.

Novamente Davi coloca esta causa nas mãos de Salomão para que seja tratada com bastante sabedoria, para que tal homem rebelde não tivesse vida longa, com longa chance de repetir abertamente seu espírito de dissidência.

Chegado o dia, Davi dá o seu último suspiro, aos seus setenta anos de idade.    Foi enterrado em Jerusalém, onde até hoje se diz que se encontra o seu túmulo.   Todo o Israel o lamentou, devido a ter sido ele um grandioso rei, amável, justo, sensível aos problemas de seu povo, que nunca se negou a arriscar a própria vida para sair em combate a inimigos amedrontadores, e vencê-los.  Nunca foi injusto ao julgar a causa do povo, senão apenas no caso em que se apaixonara por Bate Seba, por quem, aliás, pagou um alto preço em sua vida.   Apesar desta falha gritante, ele sempre será lembrado como o famoso rei salmista, que tinha uma profunda vida espiritual junto a Deus, ao ponto de inspirar os nossos corações quando meditamos nas palavras que nos deixou escritas na Bíblia, como seu legado.

LIMPANDO O TERRENO.

Adonias, o irmão mais velho de Salomão que quase logrou usurpar-lhe o trono, após a morte de Davi, arquitetou um plano muito sutil com a finalidade de ser reconhecido como o herdeiro do trono.   Quem lê a respeito dessa história sem captar as verdadeiras intenções que ficaram por trás das entrelinhas, pode pensar que ele tinha apenas uma fraqueza moral que se acentuou ao pousar seus olhos sobre a jovem Abisague – que cedeu a esta sua paixão e por causa disso acabou caindo em um laço, por ser vítima de seus sentimentos – mas não se trata absolutamente disso.

Adonias foi muito perspicaz.   Após ser desmascarado como pretenso usurpador, fingiu submissão e fidelidade a Salomão rei.  No fundo, ele queria, de alguma forma, que o povo passasse a vê-lo como legítimo herdeiro do trono.   Se o conseguisse, sua proximidade com Joabe e com Abiatar, os renomados general e o sacerdote dos sofridos tempos de Davi, e mais ainda todo aquele povo que o aceitou como tal naquele sacrifício e banquete de celebração por sua ascensão antes de Davi ordenar a coroação de Salomão, ele teria então condições de cercar-se de seguidores, armar uma sedição e disputar novamente aquele privilégio de tornar-se o novo rei de Israel.   Adonias, com certeza, até aí já havia combinado e traçado planos juntamente com seus aliados.   Joabe e Abiatar certamente até o ajudaram a traçar uma rota para bisar alcançar esse alvo.

Agora que Davi estava morto e sepultado, ele não iria mais intervir em uma outra tentativa de usurpação, como foi da primeira de Adonias, e isto lhe pareceu um fator favorável a novamente… tentar algo movido por aquela mesma saga que o corroia por dentro.

Uma das maneiras de ser visto como o herdeiro do trono do rei Davi seria montar no jumento, montaria particular do rei, no qual somente Davi montava, e sair pela cidade de Jerusalém fazendo alarde, e causando furor.   Quanto a isto, nem pensar.   Salomão já havia feito isso, quando foi ungido rei em Giom, pelo profeta Natã e o sacerdote Zadoque.   Ademais, aquele animal estava sob intensa vigilância dos tratadores, soldados e servos da confiança de Benaia, que não admitiriam tala ousadia, mormente depois de tudo que já tinha ocorrido em El-Rogel.  Esta hipótese estava, pois, descartada para Adonias.

Havia, porém, um outro caminho, indireto mas bem mais astuto.    Adonias calculou-o com muita perspicácia.   Ele olhou para a bela Abisague, a última concubina do rei Davi, que ainda restara virgem, devido às óbvias condições em que se encontrava o falecido rei nos seus últimos dias.

Era a oportunidade que ele queria.    Desposar a ex-concubina virgem do seu pai seria um caminho excelente, para o que ele desejava alcançar.    As mulheres de um rei falecido, por tradição, eram tidas como parte da herança deixada para o novo rei, naquela cultura.   O que ele precisaria, então, seria lançar uma notícia de que estaria seriamente apaixonado pela bela jovem.   A beleza externa e a maneira sensível,  desinteressada e compassiva de Abisague tratar com Davi a revelavam como portadora de grande beleza interior.   Esses dotes poderiam ser uma grande desculpa forjada para se expor um suposto sentimento que passou a ficar sem controle no coração de Adonias.

Ele, Adonias, não queria, porém, ousar expressar-se e estender um pedido desses diretamente ao rei Salomão, seu irmão, que afinal havia ordenado de forma piedosa e sábia, mas firmemente que ele se retirasse para sua casa, e não causasse mais problemas.   De qualquer maneira, o rei era o único que poderia ceder-lhe este imenso favor, e ninguém mais.  Mas quem, então, estaria disposto a servir-lhe de “moleque de recados”?   Um intermediário que soubesse transmitir ao rei Salomão os “sentimentos de um irmão apaixonado”?   Teria que ser alguém que tivesse toda a simpatia do rei, e a capacidade de formalizar de forma bastante aceitável aquela pretensão.

Mais um lance de sagacidade da parte de Adonias:  ele olhou para Bate Seba, a mãe de Salomão, a mulher que deixou-se a si mesma seduzir pelos galanteios do rei Davi, ao ponto de chegar até a trair seu então marido, Urias.  Ela era uma mulher que entendia desse ramo de paixão.   Ela era alguém que poderia muito bem compreender um coração apaixonado, do jeito como Adonias queria que alguém o visse.   Se ele pudesse convencer a rainha mãe, Bate Seba, a pedir este favor a Salomão…  seria muito bom e oportuno para ele, e se Salomão mordesse a isca…  seria ótimo!   Assim ele pensava, e assim procurou por Bate Seba.

Como um excelente artista, Adonias insinua sua paixão por Abisague perante Bate Seba, e implora-lhe que esta lhe seja aquela que o compreenda, e que, por um grande favor, interceda por ele perante o seu irmão rei.  A força de seu pedido é grande.  Ele até deixa no ar que sua cobiça pelo trono era incentivado pela conquista de Abisague como esposa.  E não é mesmo que ele consegue?  Ele foi feliz ao transmitir aquilo que queria deixar transparecer, e ela, como uma pobre e ingênua mãe, acreditando nos sentimentos semifrustrados dele, vai até Salomão para levar aquela petição, sem pensar nas consequências do que isso poderia acarretar.

Ao chegar perante o trono, Bate Seba foi muito bem recebida.   Salomão ficou alegre ao vê-la, e foi bastante cerimonioso.  Foi ao seu encontro, inclinou-se diante dela e ordenou que se pusessem uma cadeira à sua direita, onde ela se assentasse.  Tudo parecia até uma festa de alegria.  A mãe do rei veio vê-lo em seu trono… isto era muito bom!    O amor fraterno era o que dominava o clima daquele encontro.

Ao chegar a hora de Bate Seba externar o motivo daquele encontro, ela procura fazê-lo da mesma maneira convincente com que Adonias lhe estendeu o pedido.   Até aqui, tudo estava dando certo, conforme os planos do irmão do rei…

Tomando, porém, conhecimento do que sua mãe veio lhe pedir, as feições de Salomão mudaram completamente.   De uma expressão de alegria e prazer, o rosto do rei descaiu em seu semblante.  Imediatamente, ele percebeu a trama que estava por trás daquelas palavras aparentemente inocentes e românticas.   Ele logo captou que sua mãe tinha sido envolvida com engano, sendo usada pela astúcia de seu irmão.   Os seus pensamentos ainda foram mais longe.   Se Adonias, o irmão mais velho (que na tradição dos reinos de outras nações vizinhas seria considerado o herdeiro do trono), pudesse, com o desposar de Abisague, levantar-se novamente para tentar reinar sobre Israel, tanto Salomão como sua própria e ingênua mãe seriam alvos da espada dos inimigos do seu trono.   E ela nem se deu por apercebida…

Isso exigia uma reação forte da parte de Salomão.   Não se tratava de apenas defender a sua mãe e a si mesmo.   Era também uma questão de defender o reino.   Ou o rei tomasse atitude firme e drástica, ou teria que arcar com sérios prejuízos a curto ou médio prazo.   A trama lhe pareceu claro que vinha principalmente da parte dos seus três rivais:  Adonias, Joabe e Abiatar.   Não havia mais como tentar solucionar o caso “colocando panos quentes” para abafar tal rebelião, e Salomão resolve partir para o uso de seu condão de juiz, e decreta a sentença capital para Adonias e Joabe.

Devido à sutileza usada por Adonias, ele estava esperando que, por ser irmão do rei, um filho de Davi, por certo que não seria morto, como aconteceu da primeira vez em que tentou apossar-se do reino.   Aliás, ele estava até cheio de expectativa, esperando que de repente Abisague lhe fosse trazida por emissários de seu irmão até sua casa…   Mas não foi isso o que aconteceu, para sua desgraça.

Salomão dá ordens a Benaia, filho de Joiada, para que fizesse o serviço de execução de Adonias, e assim foi feito.

Passo seguinte, Salomão tratou com Abiatar, o sacerdote.   Este caso era mais complicado.   Este era um representante da Lei do Senhor, um homem que costumava adentrar ao Lugar Santíssimo para interceder pelo povo.  Ele também foi que levou a Arca do Senhor (II Samuel 6:12).  Era outrossim alguém que ajudou muito a Davi, consultando a Yaweh em horas difíceis por que ambos passaram juntos, foragidos, vagueando de um canto para outro, em busca de paz e segurança, enquanto a espada de Saul os perseguia.

Os sacerdotes eram ungidos de Deus, e Salomão aprendeu de seu pai que jamais se toca em um desses homens para tirar-lhes a vida, fosse qual fosse a situação.

Contudo, Abiatar se havia unido ao complô para usurpar o trono das mãos de Salomão, e esta era a segunda vez que isso acontecia.   Salomão o chama à sua presença, e diz-lhe que sua performance seria digna de morte mas apenas lhe ordena que saísse de Jerusalém, para um outro país (conforme o escreveu Flávio Josefo) e se distanciasse do ofício sacerdotal de vez para sempre.   Isto o colocaria longe de pessoas influentes no reino a quem pudesse talvez envolver em um outro esquema pernicioso.   Desta forma aparentemente sem ligação com o passado, e aleatória foi que acabou por cumprir-se a palavra do Senhor dita a respeito da descendência de Eli, em Siló.

Como em uma reação em cadeia, Joabe ficou sabendo do que ocorrera com Adonias e com Abiatar, e, como age um verdadeiro culpado, ele desaparece de Jerusalém.  Sabedor que era de ter feito parte de um complô, ficou temendo pela sua vida.   Logicamente, ele haveria de ser o próximo a ser preso e julgado.   Ele sabia também que, se Adonias não fora poupado, muito menos Joabe o seria.   Seus pensamentos então se detinham na pálida esperança de somente de salvar a sua pele.   Méritos para uma anistia ele não havia juntado em sua vida.    Sempre matando, em guerra e em tempos de paz, ele derramou muito sangue.    Digno de misericórdia, ele, que, por muito menos do que o que lhe fizeram, assassinara a dois generais de Davi, injustamente?   Não era o caso.   Para onde ele foi?  foi segurar nas pontas do altar em Gibeão, o que logo foi relatado a Salomão.

Aquilo era um tácito recurso de pedido de equidade, segurar nas pontas do altar dos holocaustos, junto ao Tabernáculo.    Apesar de tudo o que ele fez, ainda julgava-se no direito de ser contemplado com um indulto.   Lá estava ele, à espera de um julgamento que lhe poupasse a vida, mas ao tomar conhecimento disso, Salomão já expede sua sentença capital, desta vez sem oportunidade para apelação.   Benaia, o comandante do exército, foi até Gibeão, para prendê-lo, mas Joabe não abriu mão do chifre da quina do altar, ainda com uma leve esperança de ser perdoado.

Benaia ainda lhe deu atenção, pois que afinal eles tinham sido companheiros de batalhas, lado a lado.   Havia ordem de execução, mas fazê-lo ali, onde se sacrificam ofertas ao Senhor…  Então voltou Benaia ao rei para dizer que Joabe não sairia dali.   Joabe sabia que sentença o esperava fora do altar, e, se era para morrer, morreria ali mesmo, no último lugar onde poderia alcançar seu habbeas corpus.   Mas não era este o seu caso.  Em Êxodo 20:14 já estava escrita sobre a sua culpa e a sua sentença era já definida.   Salomão apenas diz o que era de conformidade com a Lei.

Quem então teria coragem de executar ao famoso e terrível Joabe, o matador?  Isso não poderia ser tarefa para qualquer um.  Um jovem inexperiente poderia até mesmo morrer, ao tentar matar aquela “fera”.  Ninguém melhor que o próprio Benaia, um dos afamados valentes de Davi, ex-comandante da guarda real, que sabia como matar leões ferozes.   Era a ordem do rei, e era nada menos que justa.   Joabe não quis largar da ponta do altar, e morreu ali mesmo.

Faltava ainda tratar com aquela última pendência recomendada por seu pai Davi.   O não menos perigoso Simei, o benjamita partidário da dinastia de Saul, que aparentemente estava em paz… por enquanto!  Só até aparecer uma nova oportunidade, tal e qual uma aranha monta a sua teia e fica na espreita, até que uma vítima esperada se prenda nela, e então… ZÁZ!

Davi advertiu a Salomão para que usasse de sabedoria para tratar com esse desaforado dissidente, e não permitir que o mesmo ficasse plenamente à vontade pelo resto de seus dias, para voltar a fazer com o jovem rei aquilo que fermentava em seu coração.   Foi o que Salomão fez no momento adequado.

Aproveitando que houve a sucessão, Salomão tomou providências para que Simei fosse controlado e fiscalizado de perto.    Davi não quis ordenar a morte desse homem, quando foi procurado pelo mesmo quando voltava da terra de Gileade para o seu trono em Jerusalém, em um dia de alegria e de um certo alívio para ele e a casa real, mas a ascensão de um novo rei ao poder sempre envolve algumas mudanças, e por fim chegou um novo dia.  Davi dera a palavra de que não mataria a Simei, mas  Salomão não lhe prometera nada, e chegara a hora de um ajuste de contas.

Inicialmente, Salomão nada ordenou a Simei, senão que este construísse uma casa e para a mesma se mudasse – dentro de Jerusalém – e não saísse da cidade por motivo algum, e sob hipótese alguma.   Estratégia sábia.   O homem ficaria sob controle de Salomão e seus servos, de modo que ficaria impossibilitado de ir de encontro aos seus conhecidos amigos e parentes benjamitas, sobre os quais exercia forte influência.   É de se considerar, também, que Jerusalém ficava dentro das fronteiras da tribo de Benjamin, o que realmente demandava uma vigilância cuidadosa para que o tal não se afastasse da cidade do rei.

Simei acatou essa decisão, achando que sua sentença poderia ter sido pior.   Achou menos mau, e tratou de obedecer à ordem do rei.  Edificou, fez o acabamento, do jeito que bem quis, mudou-se para lá, e ali morou por algum tempo, mas…   um dia sucede a outro dia, e nada como um dia após o outro para que situações novas tragam novos problemas a serem resolvidos.

Assim, em certo dia, três anos após morar em Jerusalém, dois dos escravos de Simei fugiram de seu senhor, e foram refugiar-se em Gate.   Áquis, filho de Maaca, era ainda o rei filisteu daquela cidade.   Pois então, não temendo a ordem do rei Salomão sobre sua permanência restrita somente a Jerusalém, Simei albardoa seu jumento, foi até Gate para buscar seus escravos, e, usando de boa conversa junto ao rei Áquis, conseguiu recuperar seus dois servos fugitivos, e voltou a Jerusalém.

Os motivos daquela viagem, ao que tudo indica, não eram subversivos, mas levou-o a transgredir à ordem terminante de seu rei.   Houve um desrespeito para com o acordo mantido anteriormente, ao qual até achou que era bom.   Isso implicava no fato de que, mais tarde, outras saídas furtivas certamente seriam dadas, o que tornava a presença de Simei, mais uma vez, uma ameaça ao reino.    Aquela sua saída às ocultas parecia ter um caráter inofensivo, mas isto era só aparência, pois abria um precedente de tentativa de menosprezo às ordens reais.   Então chegou a hora de “a onça beber água”.

Salomão mandou chamar a Simei, e lhe disse que este fora advertido severamente para não se ausentar de Jerusalém, sob a ameaça de ser morto, e este não deu importância ao aviso.   A fim de que tal abuso não mais se repetisse, o rei o sentencia a ser supliciado.

Benaia recebeu então a ordem, levou Simei para fora, e ali o matou, e assim foi executado o juízo sobre um rebelde que um dia se levantou para manifestar seu partidarismo contrário ao ungido do Senhor.

Desta forma foi firmado o trono de Salomão, e todos o temiam e o reverenciavam devidamente, o que era justo, e ficou bem.

A sabedoria e a firmeza usada para os três casos mencionados nos mostram o quanto esta é importante para que sejam mantidas a ordem e a justiça.   A truculência não é um bom caminho, mas quando um reino é ameaçado, toda uma nação também o é, e isto implica em ter de se tomar decisões drásticas.

A maneira de Salomão tratar com os três casos nos diz mais uma vez que o mais importante tem que ser tratado como o mais importante.   Bom é ter misericórdia, mas esta há que ser dosada, e esta é como uma corda de tamanho limitado, e que pode chegar a sua ponta, onde acaba, e então chega a hora da justiça.

Outro ponto que nos leva a refletir teologicamente é que Deus permitiu que o regime monárquico fosse o mais aplicado na Terra desde os primórdios, a fim de que os homens sentissem o que é ser governado por uma pessoa que retinha os poderes executivo e judiciário, e por vezes também o legislativo, todos centralizados no mesmo trono.    Assim ficou estabelecido um paralelo entre o governo do Céu e o da Terra.   E se os homens tinham que reverenciar a um homem, só porque o cetro do poder estava em sua mão, muito mais devem reconhecer e prestar as devidas honras a Quem tem muito mais poder de fogo para governar o mundo todo e o Céu também.

Temos que considerar também que Deus é o grande Soberano, que reina sobre o Universo.   Muitas coisas más têm sido feitas nesta terra, sem o Seu consentimento, pelos maus mordomos que não quiseram considerar que a corda da misericórdia um dia há de chegar ao fim, e que estes, poderosos ou não, haverão de ter de prestar contas da sua mordomia.

Um dia chegará o tempo do fim, onde o Seu grande julgamento se há de implantar, e tudo o que foi feito pelos homens será exposto á luz, e serão separados os bons dos maus, limpando a sua eira e retirando todas as pedras de tropeço de vez para sempre.

Que saibamos ter consciência disso, e que nossas atitudes se voltem para os caminhos do Senhor, que muitas maravilhosas recompensas tem a liberar aos que Lhe forem fieis.

Jesus, o Seu Filho, reinará numa nova Terra, em uma Nova Jerusalém, e todos os que nEle creram e O seguiram fielmente, reinarão com Ele.   Que os nossos pés sejam aqueles que Ele liberou para ali adentrarmos, e sermos eternamente felizes em Sua presença.

Levantemos e andemos ao encontro de Jesus, para andar prazerosamente e sempre em Sua doce companhia, do Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores.


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