II REIS – XXII – A GOTA QUE FAZ TRANSBORDAR

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agosto 3, 2018 by Bortolato

Este é um velho adágio. Tome-se um copo, e depositando dentro do mesmo algum líquido, enchê-lo até a sua borda, se estiver preenchido na sua capacidade máxima, e continuar-se a pingar gotas, uma após outra, em certo momento uma pequenina gota cairá para fazer com que haja um transbordar.

Assim também acontece com relação à paciência de alguém. A capacidade de suportar-se situações embaraçosas ou difíceis é algo que normalmente não se sabe exatamente quando e nem em que medida tudo irá fazer entornar o caldo, mas que este irá transborda, isto é certo.

Quando Abraão recebeu de Deus a promessa de possuir a terra de Canaã, terra ainda ocupada pelos povos queneus, quenezeus, cadmoeus, heteus, fereseus, refains, amorreus, cananeus, girgaseus, e jebuseus(Gn. 15:28-21), esta palavra lhe veio supostamente a partir do ano 1920 A.C. (Gênesis 12:6,7), o que veio a iniciar a cumprir-se somente pelo ano 1451 A.C.. Passaram-se quase quinhentos anos e aqueles povos todos ali permaneceram até então. A promessa estava em stand by. A terra já havia sido dada por Deus à descendência de Abraão, mas a posse da mesma continuava nas mãos daqueles povos todos. Abraão até chegou a habitar ali por allguns anos, mas ele não pôde reunir condições de possuir aquelas dimensões todas daquela terra que lhe fora prometida. Ainda faltavam alguns requisitos para que a posse fosse dada aos filhos de Abraão. O que de mais importante estaria faltando? Qual seria o motivo da demora?

A razão pela demora dessa conquista foi explicada pelo próprio Deus:

porque a medida da maldade dos amorreus ainda não está preenchida.” (Gên. 15:16)

Isto quer dizer que a promessa dada a Abraão haveria, sim, de cumprir-se, mas somente enquanto houvesse um contínuo pesar na balança, pelo qual os povos cananitas seriam avaliados, e enquanto este processo se desenvolvia, estes gozariam do privilégio de morar na terra dada aos hebreus.

Deus estava esperando algo acontecer, não tão rápido e nem repentinamente: um certo tipo de comportamento que houvera começado há anos, e que aos poucos, gradativamente, estava aborrecendo-O cada vez mais, até que, finalmente, a Terra de Canaã seria entregue nas mãos dos filhos de Jacó para ali habitarem.

Isto também quer dizer que a longa paciência de Deus não se estica infinitamente, ao bel prazer da vontade dos pecadores. Tudo tem limites, e um dia este limite é ultrapassado, quando então tudo vira de pernas para o ar, como se uma grande tsunami invadisse o território e a ordem das coisas fosse completamente mudada.

Apesar dos longos anos de espera, o Senhor, sempre que achava oportuno, voltava a frisar, como que a dizer que a Sua palavra não cai abaixo, mas sempre volta firme como nunca. Assim foi durante todo esse tempo.

Passados muitos anos da promessa feita a Abraão, eis que a mesma foi reafirmada por Deus a Jacó, um dos netos do patriarca (Gênesis 28:13), lá pelos idos anos de 1760 A.C., mas ainda não era a hora de possuir a terra. Jacó então estava sozinho, indo para Padã-Harã, onde viria a constituir a sua família, e depois de vinte anos, ele voltaria para Canaã com a família que formou, e ali, em Siquem e Betel habitou por vários anos, mas ainda não pôde possuir toda aquela terra, nem ele e nem os seu filhos.

Anos se passaram, e um dia Jacó teve que sair da Terra Prometida, para ir morar no Egito. Isto aconteceu pelo ano de 1707 A.C., e lá naquele país se desenvolveu muito rapidamente a descendência dos filhos de Jacó, por c. 430 anos, de modo que eles se tornaram muito numerosos. Já eram em número suficiente para tomarem conta de toda a terra de Canaã, mas estavam debaixo de um jugo de escravidão terrível, nas mãos do Faraó.

Foi quando, em c. 1491 A.C., através de Moisés e Aarão, que o mundo pôde saber que o Senhor Deus de Abraão, Isaque e Jacó tem poder para livrar os Seus, usando de mão forte e poderosa que opera maravilhas, e libertou-os daquela escravidão, pela Sua misericórdia e amor. E o povo de Israel pôde sair do Egito, porque então estava chegando a hora de tomarem posse da Terra Prometida – mas eles somente puderam fazê-lo depois de quarenta anos de peregrinação no deserto.

Então aquela era a hora: a medida da iniquidade dos povos cananeus estava preenchida – aliás, já transbordante.

Era a hora de o povo de Deus agir, debaixo de Sua orientação, proteção e inspiração.

Como este processo foi demorado! Não fosse a constante aproximação do Senhor e contato com o povo hebreu, animando-o e consolando-o nas dificuldades, eles jamais o conseguiriam. Quase quinhentos anos! Isto não é pouca coisa. Passaram-se gerações, e a promessa ainda não tinha sido cumprida, quando então puderam apossar-se da terra.

Ficamos então a pensar: o que será que os povos cananitas fizeram, que tanto aborreceram a Deus, ao ponto de estes serem varridos da terra, para darem lugar aos filhos de Israel?

Não foi pouca coisa. Muitas práticas vergonhosamente indecentes e injustas. A começar pela idolatria. Este é um ato de alta traição ao Deus que os havia criado, e deles esperado melhores coisas.

Aqueles povos edificaram lugares nos altos dos montes, onde se entregavam a grandes orgias, levantaram estátuas por todos os lados da terra, inclusive dentro de bosques, de modo que o povo podia cultuar seus ídolos por onde quer que passassem. Ali queimaram incensos de alto valor pecuniário em honra aos deuses a quem escolheram no lugar do Senhor Deus único e verdadeiro. Adoraram a deuses dos bosques, das montanhas, dos vales, rios e desertos, a entes cuja aparência se mostrava semelhante a animais, aves, peixes, seres mistos e horríveis. Construíram grandes templos para desenvolverem esses cultos de práticas abomináveis.

Distorceram os direitos civis, concedendo sentenças favoráveis a homens salafrários, violentos e maldosos, vendendo-se em busca de prazeres, dinheiro, fama e poder. Embebedaram-se ao ponto de cometerem muitas loucuras. Oprimiram os pobres. Perverteram o sexo natural, dom que lhes fora dado para poderem reproduzir-se e multiplicar-se, e deram-se a várias práticas como de estupros, bestialidades e outras do tipo que nem é conveniente comentar.

Mataram-se uns aos outros por coisas de somenos. O pior de toda essa decadência moral e espiritual é que chegaram ao ponto de matar seus próprios filhos, pequeninos seres inocentes, entregando-os nos altares dedicados a deuses como Baal, Aserá e outros – as crianças que estes, por dádiva celeste puderam alcançar a bênção de as darem à luz, eles as davam sem misericórdia a quem não reunia uma gota de mérito para reivindicar suas vidas daquele modo. E, não contentes com os sacrifícios de crianças, ainda elegiam jovens, homens e mulheres para serem mortos em seus altares.

Isso tudo não nos aborrece, só em pensar nessas atrocidades? Pois realmente aborreceu a Deus, e ainda O aborrece; deixa-O furioso. Imagine como a face do Senhor se contrariou ao tomar conhecimento de tudo quanto faziam. E a Bíblia diz que horrenda coisa é cair nas mãos do Deus Vivo – e que o nosso Deus é fogo consumidor… (Hebreus 12:29; 10:31)

Apesar de haverem-se tão insanos, parecendo até que não tinham perfeito juízo em suas mentes, a longanimidade de Deus lhes foi dando oportunidades inúmeras, umas após outras, para que pudessem arrepender-se, voltarem atrás, deixarem de praticar tais coisas detestáveis aos Seus santos olhos, e assim ia-se enchendo a medida que nunca deveriam desafiar, e muito menos transpor – até que uma gota a mais já seria o suficiente para que tudo transbordasse.

Esta gota final aconteceu durante o reinado de Oseias, em Israel Norte, que durou entre os anos 732 a 722 A.C. – e então acabou-se a hegemonia e os reinados deste reino. Ele foi o último rei israelita.

Diz a Bíblia que nem tão mau assim foi ele, como o foram os seus antecessores, mas deixou sua participação no enchimento da medida da ira de Deus, e de qualquer modo ficou marcado com o estigma de um mau rei.

Quando uma corda é esticada, excedendo ao máximo da sua capacidade de ser tensionada, as suas fibras começam a romper-se. Esta corda continua ainda firme por algum tempo, mas conforme vão-se quebrando fibra após fibra, por fim chega ao ponto em que apenas uns poucos fios a mantêm segura. Então podem até afrouxá-la tanto quanto antes, mas quando se chega a este estado, basta um pequeno puxãozinho, e … pronto! Ela se rompe totalmente.

Foi o que aconteceu com o rei Oseias, de Israel Norte.

Em II Reis, capítulo 17 o seu caso é bem exposto.

Começou o seu reinado, assassinando o seu antecessor, Peca, e substituindo-o no trono.

Ele inicialmente fez uma aliança com o rei Tiglate Pileser III, um déspota conquistador que estava invadindo a Galileia e a Transjordânia, deixando Oseias dentro de um território reduzido e truncado.

Peca havia anteriormente assumido uma posição totalmente antiassiríaca, e isto foi a causa da conspiração de Oseias. O próprio Tiglate-Pileser afirma em seus escritos que Oseias foi elevado ao poder do reino de Israel por sua decisão e iniciativa. Isto significa que o rei de Israel então era apenas uma figura manipulada pelo rei assírio, desde o início de sua gestão, o que não era nada honroso.

Possivelmente cansado de ser um simples vassalo da Assíria, Oseias, depois de sete anos nesta situação, estabeleceu contatos com o rei do Egito, de quem esperava receber suporte necessário para romper com os laços de submissão que o obrigava a pagar altos tributos, ano após ano, até se enfadar.

Esta revolta de Oseias não deu bom resultado. Salmaneser V, o filho de Tiglate-Pileser III, marchou contra Samaria, e cercou-a durante três anos, e o rei de Israel não teve outra alternativa senão entregar os pontos, e abrir os portões da cidade, tentando aplacar o seu soberando, reafirmando submissão incondicional. Isto não funcionou. A confiança entre os reinos estava abalada, e não havia jeito de consertar a situação.

Oseias foi preso e acorrentado, e Salmaneser usou de uma estratégia para desfazer o sentimento nacionalista que poderia restar em Israel, deportando o povo de Samaria e outras cidades para várias outras nações, a fim de que este se misturasse com outros povos, e fazendo migrar outras gentes para as cidades de Israel.

Assim, em 722 A.C. Israel Norte deixou de ser um reino. Veio então a ser uma província da Assíria e o seu povo passou a mesclar-se com outras raças, compromentendo a fé exclusiva em Yaweh que ainda havia em alguns poucos. Desta forma a nação israelita chegou ao fundo do poço, e não teve mais saída.

O que deixa aquela sensação de um misto de compaixão, pesar, nojo e desgosto é sabermos que aquela nação que outrora foi planejada por Deus, que os fez sair aos milhares das garras da escravidão, para irem a uma terra onde mana leite e mel, onde eles deveriam ali permanecer firmes na fé, servindo, amando e honrando ao Senhor, não correspondeu à expectativa divina, e deixou de ser chamada de povo de Deus.

Esta rejeição da parte de Deus também não foi facilmente adotada. Não foi sem muito pesar, após anos a fio. O Senhor Yaweh tem sentimentos, sentimentos que foram feridos, e estes são bem representados pelos seguintes nomes dados aos filhos do profeta Oseias (este é um outro Oseias, que profetizou por vários anos a partir de 746 A.C., e não deve ser confundido com o rei sobre quem ora comentamos): “Lo-Ruama” (= não amada), porque Deus não mais se compadeceria e não perdoaria a casa de Israel, e “Lo-Ami” (=não meu povo), porque o Senhor dizia que eles não eram mais o Seu povo, e nem Ele era mais o seu Deus. É assim que vemos o coração sofredor de Yaweh expressar-se, pois que se entregou em uma relação de amor, na qual Ele não se deu bem. Os lamentos dos profetas não eram apenas reações humanas, mas sentimentos inspirados, que provinham do Trono do Altíssimo. Profundos lamentos, com toda a razão, lamentos do próprio Deus…

As coisas, porém, não são tão simples, e nem tudo o que Salmaneser planejou deu certo. Os povos estrangeiros que vieram então da Média e da Pérsia a morar nas cidades de Israel trouxeram os seus ídolos, e os seus cultos estranhos, e nem sequer buscavam ao Senhor Yaweh, o que significa que, em contrapartida, o nome dEle já não mais estava empenhado e comprometido com aquela terra. Como resultado disso, a Sua proteção às vidas dos habitantes também já havia sido retirada. Leões se multiplicaram muito, e começou uma série de ataques que chegaram a ceifar tragicamente várias pessoas ali. Os habitantes de Israel de então vieram a fazer parte do cardápio dos leões que passaram a reinar sobre os homens e a terra. Tragédias sobre tragédias…. era assustador…

Esta situação veio a se desenrolar por algum tempo, até que alguém pôde concluir que, se esses leões não eram tão frequentes na época em que o povo de Israel tinha um certo vínculo com o Senhor, isto teria algo a ver com a ausência de cultos a Yaweh. O caso foi levado ao rei da Assíria, que considerou bem o contexto histórico-religioso da Eretz Israel, e concluiu que seria de bom alvitre que um, pelo menos um dos sacerdotes do Deus Yaweh que foram de lá exilados pudesse voltar para exercer o seu sacerdócio na terra onde ofereciam sacrifícios.

Veio então um sacerdote que tinha sido levado de Samaria, e este se estabeleceu em Betel, de onde passou a ensinar o temor do Senhor…

Como a mentalidade daquele povo ainda era idólatra, eles passaram a cultuar ao Senhor e também aos deuses, de acordo com o costume de cada povo pagão de onde tinham vindo. Logicamente isto não foi do agrado de Deus, mas foi uma prática que adotaram por longos anos e séculos. Esses sacrifícios e esses cultos ao Senhor certamente eram muito formais, e vazios de conteúdo aceitável, enquanto Ele apreciaria muito que isso fosse corrigido.

As consequências de tudo isso foi um longo e tenebroso inverno, um clima de frieza espiritual com relação às coisas de Deus, e um certo distanciamento entre Ele e o povo.

Seria esta a maneira com que Israel seria pulverizada e extinguida diante de Deus? Tudo indicava que sim.

Quem, porém, ler todo o livro do profeta Oseias, terá visto que a misericórdia de Deus não havia acabado, e assim escreve o autor sagrado:

Porém o número dos israelitas será como a areia do mar, que não pode ser medida nem contada; e no lugar onde se dizia a eles: “Não sois meu povo”, se dirá: “Vós sois filhos do Deus vivo”. (Oseias 1:10)

(E naquele dia, diz o Senhor… )Eu os semearei para mim na terra e terei compaixão de Lo-Ruama e direi a Lo-Ami: Tu és meu povo; e ele dirá: Tu és o meu Deus” (Os. 2:16-23).

Esta foi uma promessa que veio a cumprir-se em nossos dias, mas após muitos e muitos anos. Por centenas de anos Israel deixou de ser uma nação, e seus membros foram espalhados por muitas partes do globo, mas um dia chegou em que eles puderam voltar à sua terra prometida.

Realmente, o cálice da ira de Deus é terrível, como está escrito:

Porque na mão do Senhor há um cálice cujo vinho ferve, cheio de mistura, e Ele dá a beber dele; certamente todos os ímpios da terra sorverão e beberão as suas fezes” (Salmo 75:8)

Aconteceu, porém, que Jesus foi quem bebeu desse cálice até o fim, em nosso lugar, de modo que podemos fazer coro com o salmista quando este escreve em outra parte:

Tomarei o cálice da salvação, e invocarei o nome do Senhor” (Salmo 116:13)

Esta é uma troca de cálices muito vantajosa para os pecadores, e de um custo muito alto para o Senhor Jesus, que bebeu o fel do cálice da dor e da morte.

Muito vantajosa para nós, mas muitíssimo intragável para Ele.

Como fazer valer essa troca de cálices com Jesus?

Para tanto, é necessário que antes venhamos a participar do pacto de sangue que Ele nos convida a fazer juntamente com Ele. Ele não está nos convidando a sentarmos à sua mesa para cortar nosso pulso, e juntar com o dEle também cortado para encher um cálice do qual tenhamos de beber. Isto acontece em várias instituições que têm por prática efetuar esse tipo de pacto. Jesus, porém, derramou seu sangue sem medida, sem que ninguém Lhe desse em troca um sangue meramente humano. A cruz que Ele tomou em Seus ombros o fez até esvair-se água com sangue de seus pulmões, e gentilmente Ele não nos obriga a fazermos o mesmo, para consolidar esse pacto.

Durante aquela última ceia com Seus discípulos, Jesus lhes ofereceu do Seu cálice de vinho aos Seus, e lhes disse:

Bebei dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da Aliança que é derramado em favor de muitos para perdão dos pecados” (Mateus 26:27, 28).

Parece algo tétrico, mas Ele não fez isto porque foi obrigado, e sim, de livre e espontânea vontade, pensando em nós, em mim e em Vc., que está lendo este artigo.

E mais: temos que beber do Seu cálice de amor, pois caso contrário, não teremos parte em Sua aliança de sangue, e morreremos em nossos pecados. Ele disse:

Tomai-o e reparti entre vós… fazei isto em memória de Mim… Este cálice é o Novo Testamento (Nova Aliança) em meu sangue, derramado em favor de vós” (Lucas 22:17, 20)

Recebamos e tomemos do cálice da salvação que Jesus nos tem outorgado. Não teremos outra saída para a vida eterna, e Ele tem prazer em ver que o Seu sacrifício não foi feito em vão, pelo menos com relação a nós outros.

E louvemos ao Senhor, por tão tremenda bênção que Ele desprendeu a nós dessa troca de cálices. Dramática, sim, mas cheia da graça, de uma nova vida abundante, que se segue dia após dia, molhada com as chuvas do Céu.

Louvado seja Deus, o Pai, Jesus e o Santo Espírito, que unidos nos abriram as comportas celestes.


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